Infância pós-pandemia

07 de dezembro de 2021
                                                                                                                                                 Infância pós-pandemia

Passados 20 meses desde o início da pandemia da Covid 19 em todo o mundo, surge diante de nós o questionamento: “Como estão as crianças com tudo isso? Como ficaram no início abrupto e dramático ocasionado pelas dúvidas de todos, profissionais de saúde e o restante da sociedade, diante de um inimigo invisível e totalmente desconhecido, com grande potencial de gravidade e letalidade? E como se encontram essas crianças no momento presente, com a volta gradativa às atividades da vida normal, entre elas, atividades escolares, que no momento já estão funcionando de modo totalmente presencial, salvo algumas exceções, mas com as escolas ainda cumprindo as regras de biossegurança sanitária.

Considerando a situação atual dessa retomada da rotina escolar, algumas queixas escolares começaram a surgir relacionadas à readaptação da criança tanto ao dia a dia da escola quanto ao seu desenvolvimento cognitivo-emocional e aprendizagem. Para algumas crianças, essa retomada não ocasionou grandes dificuldades, mas para outras sim, revelando não apenas dificuldades de se readaptar quanto de assimilar conteúdos. No desenvolvimento infantil, é comum haver regressões, ou retorno a fases anteriores deste desenvolvimento, quando a criança passa por situações estressantes ou traumáticas. O nascimento de um irmão, por exemplo, pode suscitar emoções intensas, desencadear comportamentos inadequados anteriormente superados, os quais sinalizam uma dificuldade de ajustamento à nova situação, devido às mudanças significativas em sua rotina de vida.

Essa regressão pode, inclusive afetar o rendimento escolar, pois para a aquisição de novos conhecimentos, espera-se uma maturação psicológica e cognitiva na criança. Ou seja, se tudo estiver correndo bem e ela evoluindo progressivamente em cada etapa, a aprendizagem poderá ocorrer sem grandes dificuldades. Percebe-se uma significativa diferença entre as crianças que, durante a pandemia, receberam apoio em casa, de seus pais ou responsáveis e as crianças que não puderam contar com essa assistência. Soma-se a isso, toda a problemática que envolveu o acesso satisfatório ou não, às aulas remotas e sua transmissão de conteúdo.

Se para as crianças em idade pré-escolar, já existiam limitações quando estavam nas aulas tradicionais presenciais, não fica difícil entender que, à distância e sem uma assistência complementar em casa desses estudos, tais limitações podem ter sido maximizadas. Dificuldades estas também presentes não apenas na vida dos pré-escolares, mas também para as faixas etárias que iniciaram a adolescência e que contaram, por muito tempo, com o ensino remoto como a única opção para a continuidade dos estudos e, praticamente, recurso exclusivo de relacionamento com seus iguais. Com a perspectiva de retorno às aulas presenciais, inicialmente de modo híbrido, algumas crianças e pré-adolescentes, por mais que se mostrassem ansiosos pelo reencontro com os colegas da escola, paradoxalmente, sentiram-se inseguros diante dessa retomada da rotina parcial (e agora, total) aos estudos presenciais. Porém, readaptar-se é preciso e o apoio familiar e da escola tornam-se imprescindíveis, no sentido de incentivo ao desenvolvimento e de acolhimento às inseguranças iniciais.

Resta-nos, pois, o questionamento: “de que forma esses infantes poderão ser auxiliados em mais um processo de adaptação escolar, em suas vidas? Como os pais/ responsáveis e educadores poderão agir neste momento atual, onde o ensino on line e o híbrido encerraram, para dar lugar ao ensino regular e tradicional, após um período de longos 18 meses de pandemia?” Por mais que compreendamos que hoje a situação da pandemia em nosso país esteja sob um prisma mais otimista, com avanço na imunização em massa e declínio de casos e óbitos, não há como negar que esse furação denominado Covid-19, que se alastrou pelo mundo afora e causou uma grave crise sanitária e sócio-econômica, deixou sequelas de todo tipo nas pessoas, que perderam de empregos a entes queridos, e, consequentemente, isso afetou as crianças de alguma forma. Privadas do contato com seus colegas da escola, foram obrigadas a permanecerem quietas e sentadas por horas, em algum cômodo de sua casa, na cozinha ou no banquinho do quintal, sem pausa para o recreio e espaço para brincadeiras e jogos presentes nas aulas de educação física.

Para as crianças da educação infantil, ainda não iniciadas na alfabetização, essa cena parece ainda mais assustadora, pois o lúdico (o brincar) precisa se entrelaçar com o concreto (aprender) para que se dê a assimilação de conteúdos, de um modo natural, simbólico e criativo. Muitos fatores podem interferir no processo de alfabetização, incluindo dificuldades advindas de uma precária maturação cognitiva ou de conflitos emocionais na família ou sociedade. Em ambos os casos, é preciso um investimento de tempo, que muitas vezes, nem a família e muito menos a escola, conseguem empreender, para ajudar a criança a superar esse processo que dificulta sua aprendizagem, e que traz como um grande complicador, as mazelas trazidas pela pandemia, que possam ter impactado direta ou indiretamente, em sua vida.

A consequência de tudo isso são crianças desmotivadas e despreparadas a seguirem com esse retorno a uma vida “normal” que de “normal”, após tudo que passou, não tem nada. Então o que fazer? Investir tempo, dedicação e atenção à criança, seja como filho (a), seja como aluno (a). Olhar para ela e perceber o que há de errado. O que conseguia fazer antes que hoje não está conseguindo mais? Falar, andar (para os menores que já tinham atingido um nível normal de desenvolvimento)? Escrever o nome, juntar as sílabas? Fazer contas? Ler e interpretar um texto e escrever sobre isso? Analisando seu comportamento em casa: o que mudou? Algo com que se preocupar? Está mais quieta ou agitada? Sem vontade de fazer o que gostava, brincar com o que ou com quem antes o fazia? Mais chorosa, sensível ou irritadiça? Como estão seu sono e seus hábitos alimentares? A criança, por não ter a mesma facilidade de verbalizar o que pensa e sente, como os adolescentes e adultos, dado o fato dessa habilidade ainda estar em processo de desenvolvimento, expressam suas angústias e dores através do comportamento, e por isso, se estar atento à qualquer alteração em suas ações, pode ser um importante indicador da presença de um sofrimento mental ou emocional, e a criança precisa, portanto, de ajuda, apoio e atenção. Muitas vezes, a boa vontade e o carinho de alguém que gosta da criança e se interessa por ela, tanto como professor (a) ou pais/ responsáveis, pode ser o mais importante e suficiente no momento. Quando for constatada a necessidade de uma avaliação mais apurada de um (a) especialista, caso haja mais com o que se preocupar, que isso seja providenciado. Porém, a mensagem que está sendo enfatizada aqui, é que apenas prestemos atenção em como estão essas crianças e juntamente com elas, compreendamos de que modo elas podem ser auxiliadas, tendo, primordialmente, interesse e afeição por elas. Como diz a frase: “O amor move montanhas”, remove barreiras e derruba dificuldades. Sempre. Em qualquer situação.

Clarissa O. M. Acerbi Psicóloga- CRP 04/12896
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