No encontro dos bebês com os livros, possibilidades de reinvenção dos avessos do mundo.

24 de abril de 2021
Autor(a): Maria Nazareth de Souza Salutto de Mattos
Muito antes de iniciarem seus processos de inserção em instituições educativas, os bebês têm uma vida pregressa marcada por acontecimentos que forjam iniciais e singulares contornos de sua subjetividade. Desde o início de suas vidas, eles são envolvidos por narrativas que lhes informam sobre um mundo que, intensamente, passam a desvendar.

Longe de idealizar de modo acrítico contextos e condições de vida dos sujeitos, essas primeiras reflexões buscam situar aquilo que temos tomado como princípio orientador de pesquisa e trabalho: bebês são pessoas de relação. Afirmativa que, levada a termo, subverte lógica um tanto vigente de que os bebês não se ocupam do seu entorno até que constituam linguagem verbal, por exemplo. Ao assumir o bebê como pessoa de relação, compreendemos sua natureza potencialmente ativa, uma vez que relação implica ação em direção a alguém ou a alguma coisa. Logo, os bebês agem desde que nascem nas suas investidas no mundo.

Se é coerente afirmar que desvendar e legendar o mundo são ações que requerem esforço, uma vez que são gestos que operam na produção de sentidos, pode-se compreender que é na cumplicidade relacional que esses fios se tecem como ofício humano. Os bebês desvendam os signos do mundo pouco a pouco, e o enigma de conhecer um bebê e o que ele precisa também se descortina, paulatinamente, na relação construída dia a dia, nos detalhes sutis que compõem rotinas e cotidianos que configuram ambientes relacionais (WINNICOTT, 2012, 2014).

Para tanto, faz-se necessário assumir, solidariamente, que o bebê é uma pessoa que ainda vamos conhecer. Bebês e adultos são pessoas em inter-relação, que, juntos, legendam o mundo.

Bebês são pessoas de relação que se dirigem com tenacidade, interesse e engajamento nos seus projetos de imersão e descoberta dos sentidos do mundo. Livros são materialidades, produtos da cultura marcados por concepções, disputas, apostas, escolhas, intenções. Como objetos da cultura, livros são enigmas a serem decifrados. Quanto mais dialógicos e plurais, mais polissêmicos e portadores de diversidade são. 
Como produção cultural e humana, o livro carrega sua própria subjetividade, porque constituído pelas vozes, mãos, ideias de alguém (normalmente de muitas pessoas), num dado tempo histórico.

Nesse sentido, os livros convidam à reciprocidade, à construção e estreitamento dos vínculos travados nas relações entre as pessoas; destas com os objetos, espaços, materiais. O livro literário, por sua natureza múltipla, provocativamente estética e plural, configura-se como janela que permite ler o mundo para além do nosso primeiro quintal, aquele que nos acolhe nos inícios. Livros, traslados e apresentados por mãos de generosidade e afeto, anunciam sentidos que permitem alargar horizontes.

Assumidos nessa condição, livros são mais que instrumentos ou acessórios de uso pedagógico, instrucional, o que não significa negar sua função no exercício de democratização da leitura no interior das instituições educacionais. Contudo, se reduzido a este papel, são descaracterizados de sua força relacional, triangular; deixam assim, de serem eles também sujeitos que falam na relação.
 
 
Referências
ANDRADE, Ludmila; CORSINO, Patrícia. Critérios para a construção de um
acervo literário para as séries iniciais do ensino fundamental: o instrumento de
avaliação do PNBE. In: PAIVA, Aracy Martins et al. (orgs.). Literatura: saberes
em movimento. Belo Horizonte: Ceale; Autêntica, 2007, p. 79-91.
 
MATTOS, Maria Nazareth de Souza Salutto de. Bebês e Livros: relação,
sutileza, reciprocidade e vínculo. Tese. Programa de Pós-Graduação em
Educação, PUC-Rio. Rio de Janeiro, 2018.
 
PARREIRAS,  Ninfa. Do ventre ao colo, do som à literatura: livros para bebês e crianças. Belo Horizonte: RHJ, 2012.
 
WINICOTT, Donald Wood.  O brincar e a realidade. Tradução Jefferson Luiz
Camargo; revisão técnica Helena Souza Patto. 4. ed. Rio de Janeiro: Imago
Editora, 1975.
______. A criança e o seu mundo. Rio de Janeiro: LCT, 2014.
______. Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 2012

 
 * Este belo e sensível texto pode ser lido na Revista Infâncias. 

** Sobre a autora: Professora Doutora Maria Nazareth de Souza Salutto de Matos. Doutora em Educação (PUC-RJ).Docente- Universidade Federal Fluminense (UFF)- Faculdade de Educação - FEUFF-Departamento Sociedade, Educação e Conhecimento - SSE. Coordenadora do GERAR- Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação, Infância, Bebês e Crianças. Rio de Janeiro-Rio de Janeiro. 
 


[1] Referimo-nos aos livros de literatura de qualidade. Sem a intenção de esgotar  amplo debate que sustenta perspectivas do adjetivo qualidade no livro infantil, o texto se baseia nos critérios apontados por ANDRADE e CORSINO (2007): elaboração da linguagem literária, pertinência temática, ilustração e projeto gráfico.
 
Contato do bebê com o livro. 
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