Comportamento problemático.

11 de maio de 2021
Flávia Junqueira da Silva*
 
Recebi um arquivo com o capítulo de uma obra intitulado “Qual o objetivo do comportamento problemático?[1]”. A pessoa que me enviou é uma parceira de trabalho na educação infantil que tem muita afinidade com o meu trabalho e eu com o dela. Nos dizeres da mensagem encaminhada com o arquivo ela relatou que ao ler o assunto sentiu-se com muita vontade de conversar comigo sobre e que o meu entendimento a respeito do texto seria muito importante para ela.
O desafio da leitura começou por eu não conhecer a psicologia adleriana. Não conhecia os estudos de Alfred Adler, psicólogo austríaco, até eu ler esse capítulo e fazer a pesquisa sobre o que seria essa psicologia. Claro que não me aprofundei, apenas li para ter uma noção e descobri que esse psicólogo pode ser comparável a Freud e Jung em termos de estudos na área da psicologia. Já tive oportunidade de estudar as teorias desses dois pesquisadores.  Numa de minhas pesquisas superficiais, fui buscar informações sobre a obra que contemplava o capítulo.
O livro é o segmento de uma obra inicial dos autores, justificada pelo sucesso na publicação, como informa um dos sites de vendas da referida obra.  E com essa nova publicação houve continuidade a um diálogo de um jovem com um filósofo. A centralidade das ideias se baseia na teoria do psicólogo Alfred Adler.

O capítulo faz a apresentação de cinco estágios de comportamento problemático baseados na psicologia adleriana: estágio 1- a necessidade de ser admirado; estágio 2- a necessidade de chamar a atenção; estágio 3- lutas de poder; estágio 4- vingança; estágio 5- prova de incompetência.
Imediatamente após o início da leitura, chamou-me atenção o que poderia ser “problemático” no comportamento da criança. Problemático para quem? Qual seria o problema?
Os cinco estágios são apresentados pelos autores da forma mais simples à mais complexa, de acordo com a lógica de que “esse comportamento se agrava gradualmente” (KISHIMI; KOGA, 2020, p. 84). Isso pode ser considerado válido tanto para o comportamento infantil quanto para o de adultos, o que é mencionado logo no início do capítulo.

No estágio 1- a necessidade de ser admirado, a meta da criança é ser sempre elogiada, conquistar posições de privilégios (receber elogios e ter posição de destaque diante de uma situação ou com alguém). Todos os esforços da criança neste estágio estão voltados para essa meta. No entanto, não conseguindo, a criança avança para o estágio 2.
 Nesse estágio, com a frustação de não ser elogiada, a criança pensa em chamar a atenção por qualquer modo. Ela quer “mesmo aparecer” (p. 87, grifos dos autores). Nesse estágio o comportamento bom ou ruim, como apresentado no texto, é a intenção da criança em chamar a atenção dos adultos ou conquistar o que almeja.
 No estágio 3, com a predominância da luta pelo poder, a “palavra resistência resume bem” (p. 89, grifos dos autores). É por meio da desobediência que esse estágio vai marcar o “comportamento problemático”, segundo o texto. A luta pelo poder se acentua por meio da desobediência. Perdendo sua força na luta pelo poder, pois há o ato vitorioso de ignorar essas atitudes da criança, ela vai avançar para o estágio da vingança e o sentimento que marca é o ódio.

Embora no estágio anterior (3- luta pelo poder) a criança esteja voltada para um enfrentamento direto da situação, no estágio da vingança ela planeja um comportamento para desagradar o outro. E faz parte deste estágio a autoflagelação e o isolamento social.
Finalmente, sentindo-se ainda mais frustrada, a criança avança para o último estágio do comportamento problemático: prova de incompetência. Não importa o que ela venha a fazer, ela vai entender que tudo que faça não vai agradar a seus pares, os pais, os professores, qualquer pessoa, já que ela falhou em conseguir essa atenção por diversos modos e não obteve o devido reconhecimento. 
Aqui, ela tenta provar a qualquer custo que não é capaz de fazer nada de bom, nada que agrade a alguém.  O texto aponta que quanto mais os pais/professores tentam ajudar, mais esse estágio avança com esse sentimento de incompetência. Assim arremata o texto: “Infelizmente não há nada que você possa fazer” (p. 96).
Por que esse “comportamento problemático” se torna realmente um problema? Porque, em sala de aula, com os professores, em casa com a família, ou nos diferentes ambientes sociais, como no trabalho e em outros grupos de convívio, há a resistência ou a desconfiguração da ordem, do que é fácil de ser controlado. Mas por que alguém ou uma criança se torna um problema?  Realmente qual a necessidade de passar por tantos estágios de comportamentos problemáticos? É preciso analisar o contexto social, as razões sociais que estão inseridas na educação desta criança, na constituição deste sujeito. O que não é o foco dos estudos da psicologia individual de Alfred Adler.
 
KISHIMI, Ichiro.  KOGA, Fumitake.  Qual o objetivo do comportamento problemático?. In. A coragem de ser feliz. Débora Chaves (trad.) 1º ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.   p. 84-97.


 * A autora possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Uberlândia,  mestrado acadêmico em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia (2018) na linha de pesquisa Estado, Politicas e Gestão da Educação e doutoranda em Educação nesta mesma linha e instituição acadêmica. É membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Polítcas em Educação Especial e Inclusão Educacional-GEPEPES. Atua como professora da Educação Básica desde 1994. Atua como profissional da educação na SME/ Prefeitura Municipal de Uberlândia desde 1996 e como inspetora escolar da SME/Prefeitura Municipal de Uberlândia. desde 2010 . Tem experiência na área de Educação,, como supervisora pedagógica na Secretaria Estadual de Educação /MG . Atuou como membro da Comissão da Equipe Local do Plano de Ações Articuladas-PAR do município de Uberlândia (2016 a 2019). Ênfase em Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: formação continuada, educação especial, inclusão, currículo e práticas pedagógicas. Desenvolveu vários projetos didático-pedagógicos como professora da Educação Infantil na EMEI Maria Aparecida da Silva, onde atua até hoje como docente. 

 
 
[1] Parte do livro A coragem de ser Feliz (Kshimi;  Koga, 2020).
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