As Contribuições da Literatura na Educação Infantil.

01 de outubro de 2021
Autora: Elizângela Souto da Silva 

Tendo em vista a necessidade de um estudo acerca da importância da literatura infantil, o presente artigo tem por objetivo geral fazer uma análise das contribuições que a literatura infantil possibilita no âmbito da educação infantil procurando avaliar como as possíveis perdas na infância podem ser trabalhadas pela linguagem literária, demonstrando como o trabalho pedagógico auxilia no desenvolvimento do imaginário infantil.
A temática escolhida se justifica porque a literatura contribui essencialmente no desenvolvimento imaginário de uma criança, possibilitando uma reflexão profunda sobre situações de perdas. Também acrescenta à formação leitora dessa criança, sobressaltando infinitas descobertas.

De acordo com o que propunha Espinosa, Vigostski (1989), afirma a importância de considerar a estrutura monista do homem: corpo e mente, sem separação. Na educação, os docentes têm o desafio de desenvolver os aspectos cognitivos, sem detrimento das questões afetivas. Em outras palavras, além de considerar o desenvolvimento cognitivo, há também que se considerar o amadurecimento das questões afetivas e emocionais, que estão sobrepostas no processo de ensino-aprendizagem.
Quando falamos da relação do pensamento e da linguagem com os outros aspectos da vida da consciência, a primeira questão a surgir é a relação entre intelecto e afeto. Como se sabe, a separação entre a parte intelectual da nossa consciência e sua parte afetiva e volitiva é um dos defeitos radicais de toda a psicologia tradicional. [...] Quem separou desde o início o pensamento do afeto fechou definitivamente para si mesmo o caminho para a explicação das causas do próprio pensamento, porque a análise determinista do pensamento pressupõe necessariamente a revelação dos motivos, necessidades, interesses, motivações e tendências motrizes do pensamento, que lhe orientam o movimento nesse ou naquele aspecto. (Vigotski, 2001, p. 15-16)
 
Temos na literatura um solo fecundo para combinar esses aspectos, desenvolvendo ambos, sem separação. Isso posto, torna-se importância de cativar os estudantes e torná-los leitores, com o encantamento proveniente da contação de histórias, apresentações diversas de obras literárias, projetos de incentivo à leitura, etc.

Ao pensar na construção do imaginário infantil, busca-se pensar nas propostas levantadas pela literatura infantil vigente e, fundamentalmente, nas contribuições dessa para o papel das representações de perda na infância, suscitando os seguintes questionamentos: Qual a importância do livro frente às várias dificuldades, entre elas o processo de perda vivido na infância? Quais as contribuições da literatura infantil na construção do ser criança face ao tema das perdas? Como os livros literários oferecem ao leitor possíveis dispositivos para lidar com sensações e sentimentos de difícil assimilação e os transforma em etapas a serem vencidas?
Nos dizeres de Lajolo e Zilberman (2006), a literatura brasileira passou por grandes transformações nos últimos vinte anos, com as quais estão relacionadas questões econômicas e estágios das modernizações capitalistas, refletindo no perfil literário. Para os dias atuais, vê-se que a literatura infantil apresenta uma linguagem inovadora e criativa, possibilitando ao leitor conhecer outros acontecimentos da realidade brasileira.

Com isso, as autoras apontam que, com as novas transformações na escrita literária, alguns temas participam hoje dessa escrita tais como: “pobreza, miséria, injustiça e marginalidade, o cenário urbano passa a ocupar o lugar central da narrativa infantil contemporânea”. (Lajolo; Zilberman, 2006, p. 140). Essa literatura sai de uma tradição didática e se transforma, trazendo ensinamentos e vivências.
A criança que ouve e lê histórias adquire criatividade, expõe seu imaginário e suas fantasias, pois, quando entra em contato com a literatura, ela vivencia as emoções ali destacadas e assim, inicia o trabalho com determinados sentimentos que ainda não sabe lidar. Podemos exemplificar com a raiva, o medo, a alegria, a tristeza. Segundo Abramovich (1997), ler histórias para uma criança é possibilitar novas descobertas, viajar para novos mundos, ir a outros tempos:
 
É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer e passa a ser Didática, que é outro departamento (não tão preocupado em abrir as portas da compreensão do mundo). (Abramovich, 1997, p. 17).
 Além disso, ao analisar essas questões, somando-as aos estudos já existentes com a possibilidade de obtenção de novas descobertas e proporcionar novas discussões sobre como o trabalho pedagógico com a literatura infantil pode auxiliar a criança em suas descobertas.
 
Fica evidente o modo pelo qual a literatura, quando associada às vivências experenciadas na Educação Infantil, deixa marcas inequívocas no processo de ensino-aprendizagem dos alunos. Embora, a literatura hoje se apresente como mercadoria, não há dúvidas do seu papel inestimável na formação da criança, favorecendo a ela grandes conhecimentos, de maneira lúdica. 
Isso posto, a literatura proporciona novos saberes, tornando-se algo que ultrapassa obrigações didáticas de uma aula específica de determinado conteúdo. De maneira interdisciplinar, as intenções pedagógicas podem se associar a uma contação de história que cativa os estudantes e também auxilia na construção do pensamento ativo e crítico, tão almejado. Logo, é notório considerar que ao contar uma história, deve-se atentar para o modo como se conta. Também é necessário observar o conhecimento prévio dos estudantes, contando com um ambiente favorável para esse momento que é instante de fruição de puro prazer com o texto. Contudo, será possível propiciar a reflexão sobre circunstâncias do vivido pelas lentes do imaginado, e, de forma singular, sobre as perdas e suas consequências.

A criança atribui sentido ao mundo quando constrói sua própria cultura pelas interações com o meio físico e social. Portanto, quando ela traz as suas perdas, os seus ganhos e as suas dúvidas, já está edificando a sua personalidade, o seu conhecimento, as suas particularidades, os quais irão moldar comportamento, ponto de vista e, sobretudo, a leitura de si e do mundo. Tendo em vista que o estudante deve ser considerado em suas peculiaridades, é essencial que, partindo do seu desenvolvimento, ele possa conquistar autonomia, reconhecendo-se como protagonista do seu processo de aprendizagem e de sua formação integral.
 
Referências
 
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil. Gostosuras e bobices. Scipione. São Paulo: 1997. 174 p.
BARBOSA, Maria Carmen S.; HORN, Maria da Graça S. Projetos Pedagógicos na educação infantil. Artmed. Porto Alegre: 2008. 128p.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/ Acesso em 11 de jul de 2021.
LAJOLO,  Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira. História e histórias. Editora ática. 6ª ed. São Paulo: 2006. 190 p.        
MACHADO, A. Maria. Quem perde ganha. 5ª ed. São Paulo: Global, 2008. 37 p.
TOILLER, Osvino. O tapete voador. Opinião ZH, 14 mar. 2014. Artigo. Disponível em:<http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2014/03/14/artigo-o-tapete-voador/>.  Acesso em 26
jun. 2021.
VIGOTSKI, Lev Semenovich. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ZILBERMAN, R & CADERMATORI, L. Literatura infantil: autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1982.
 
Elizângela é graduada em Pedagogia pela Faculdade Católica de Uberlândia, atua como docente na rede municipal de Uberlândia na Educação Infantil.
 
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