A Importância das Práticas Pedagógicas com referências Étnico Raciais para a Construção da Identidade da Criança Negra

24 de maio de 2021
                                                                                                                                                  Gislene Alves Brito*

Desde a educação infantil, pode-se perceber que o alunado negro sofre com a invisibilidade ao que se refere a práticas educacionais sem referências e representatividades, o mundo branco imposto ao sujeito negro desde muito cedo, mesmo uma inocente história infantil com príncipes e princesas alvas e clara como a neve, ao mundo do faz de conta representado na brincadeira de salão de beleza, onde o cabelo afro não é ou é pouco tocado por colegas e professores, isso quando a criança negra é inserida nessa brincadeira, e outras tantas violências veladas que a criança pequena sofre nesse espaço e tempo que é a educação infantil.

A criação de políticas afirmativas, é um marco para a população negra brasileira, a exemplo: a Lei nº 10.639/03[1], na qual, teoricamente tem por finalidade promover a autoestima do povo negro presentes nas escolas, versando também sobre a cultura e história Afrobrasileira e Africana, auxiliando no desmonte de uma educação eurocêntrica e implementando um modelo de educação antirracista. Para além disso, refletir e trabalhar a questão racial nas escolas é importante e pertinente, assim, a escola e todos seus atores que a produzem cotidianamente: professores, alunos, gestores, pais e principalmente a comunidade, precisam conscientizar-se e exigirem que a referida lei, seja aplicada nos currículos de todos os níveis e etapas da educação, e não somente trabalhado em datas específicas como o Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, que de certa forma, pode-se considerar de grande transformação para a educação do Brasil, timidamente transformações têm sido alcançadas acerca de várias mudanças de comportamentos no ambiente escolar a partir desses acontecimentos.

No cotidiano escolar, ainda é possível identificar entraves e barreiras intrínsecas nos diferentes atores envolvidos em planejar, organizar e executar um currículo com práticas pedagógicas que atendam a diversidade das identidades e culturas presentes na educação, com ações inclusivas e afirmativas no reconhecimento da diversidade étnica, cultural e social.
Segundo Freire (1996) ensinar exige comprometimento, torna-se imperativo ressaltar a importância do comprometimento de educadores com seu fazer pedagógico, compreendendo a dimensão do ensino pela perspectiva da troca de experiências, vivências, valores, costumes e crenças.
         A identidade negra também é constituída durante sua trajetória escolar, e nesse caso a escola tem responsabilidade social e educativa de perceber a sua complexidade, considerando-a e respeitando-a, assim como as outras culturas presentes e atuantes no cotidiano escolar, lidando e relacionando positivamente com a mesma. O que precisa ser ressaltado, segundo Gomes (2012),
A identidade negra é entendida, aqui, como uma construção social, histórica, cultural e plural. Implica a construção do olhar de um grupo étnico/racial ou de sujeitos que pertencem a um mesmo grupo étnico/racial, sobre si mesmos, a partir da relação com o outro (GOMES, 2012, p.43).
 
Assim, como escrito anteriormente, a identidade do negro, deve ser compreendida com toda sua especificidade de carga, com as matizes histórico-sócio-cultural que a etnia-afrodescendente se faz pertencente, sendo construída no meio onde está inserido, entre trocas com o outro, mudando e sendo transformada pelas representações, manifestações e referências que lhes são oferecidas.
 
CONCLUSÃO
 
Concluiu-se com o presente trabalho o quanto são importantes práticas pedagógicas desenvolvidas na educação infantil viabilizarem o contato de crianças negras a elementos que representam e referenciam a cultura afrodescendente para a construção sólida da identidade destas crianças.Dessa maneira, possibilitando uma verdadeira inclusão ao fomentar uma prática pedagógica antirracista, preparando essas crianças em processo de formação psicossocial para uma educação pautada em preceitos de respeito e democracia.

Constatou-se dessa forma que não é impossível serem desenvolvidas práticas e metodologias educacionais na educação infantil, atendendo a realidade das crianças negras nessa primeira etapa da educação básica, pois existem informações e recursos viáveis para que práticas pedagógicas sejam efetivadas favorecendo uma verdadeira mudança de mentalidade em todos os atores envolvidos na educação e desenvolvimento das crianças negras, e a estas reconhecer-se como sujeitos pertencentes a uma origem étnica, perceberem-se como sujeitos integrantes de uma história, de uma cultura.
 
REFERÊNCIAS
 

BRASIL. Lei Federal Nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003. Disponível em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm#:~:text=L10639&text=LEI%20No%2010.639%2C%20DE%209%20DE%20JANEIRO%20DE%202003.&text=Altera%20a%20Lei%20no,%22%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias. >. Acesso em 17 de maio de 2021. BRASIL.
 
 
BRASIL. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Brasileiro de 2013. Características Étnico-raciais da População: Classificações e identidades. Rio de Janeiro: IBGE, 2013.
 
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
 
GOMES, Nilma Lino. Alguns Termos e Conceitos Presentes no Debate sobre Relações Raciais no Brasil: Uma Breve Discussão. Disponível em: https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2017/03/Alguns-termos-e-conceitos-presentes-no-debate-sobre-Rela%C3%A7%C3%B5es-Raciais-no-Brasil-uma-breve-discuss%C3%A3o.pdf 
Acesso em 08/05/2021 às 20h:43min.
 
 
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.
 
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: Identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
 
 
SANTOS. Hélio. Discriminação Racial no Brasil.  Disponível em:
https://esmec.tjce.jus.br/wp-ontent/uploads/2008/10/discriminacao_racial_no_brasil.pdf   Acesso em 07/05/20221 às 21h32min.
 
 
 
 
 


[1] Mediante o congresso de Durban, ocorrido em 2001(ALVES, 2002), fomentou-se a discussão sobre o combate ao racismo no Brasil. Com isso, uma série de políticas públicas foi adotada com o intuito da afirmação da diversidade, dentre elas a Lei n°10.639. A referida lei, portanto, foi um marco no que tange à afirmação da identidade negra, pois, a partir dela, passou a ser obrigatório o ensino da história afro-brasileira e africana, de modo multidisciplinar, na educação básica. Para consultar a lei, https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm  Acessado em 07/05/2021 às 18h:15min   
 

A autora possui Graduação em Pedagogia – Faculdade Católica de Uberlândia . Pós graduação em Educação de Jovens e Adultos para a Juventude – Universidade Federal de Uberlândia. Especialização em Supervisão, Inspeção e Gestão Escolar – Instituto Passo 1. Profissional de Apoio Escolar para o aluno com deficiência – Rede Municipal de Educação – Uberlândia MG Email: gisabrito38@gmail.com

Ilustração: @tamilima_ilustra

 
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