A filosofia com crianças.

14 de maio de 2021
A filosofia com crianças.
                                                                Mauro Sérgio Santos da Silva*

O senso comum geralmente compreende a Filosofia como uma espécie específica de conhecimento mais apropriada a adultos devido à sua pressuposta complexidade. As crianças, a priori, não seriam capazes de aprender conceitos, temas e procedimentos filosóficos de modo significativo. Todavia, experiências nem tão novas assim comprovam justamente o contrário. A criança é, seguramente, capaz de filosofar. E a Filosofia pode, sim, ser vivenciada desde a pré-escola, no ocaso da chamada primeira infância.

Segundo o filósofo grego Aristóteles, a filosofia começa com o assombro, com o espanto diante do mundo, da vida, dos seres, dos fenômenos e das coisas. E essa conhecida definição aristotélica consigna a cumplicidade que guardam a infância e a filosofia. A infância, como fase da trajetória existencial, sói ser marcada por notória espontaneidade, caracterizando-se por descobertas, mudanças, curiosidade; abertura para o novo, o diferente e o desafiador. Destarte, no escopo dessas qualidades, infância e filosofia são consentâneas, pois filosofar é preocupar-se com o essencial. É desassossegar o mundo com questionamentos fundamentais: Por quê? Como assim? De onde viemos? Para onde vamos? O que é a verdade, o amor, o tempo, o conhecimento?
Com efeito, as crianças não são apenas capazes de realizar esse tipo de investigação. Esses questionamentos lhe são, por assim dizer, intrínsecos. Desta feita, afirmamos: a infância é um período da vida humana extraordinariamente propício ao filosofar. É o que corroboram as diversas experiências de educação filosófica com crianças espalhadas pelo mundo.

O pioneiro nessa empreitada foi o educador americano Matthew Lipman, em meados da década de 60. Hoje, aproximadamente 50 países adotam a filosofia como disciplina em seus currículos na pré-escola e no ensino fundamental. Estima-se que, atualmente, a filosofia seja aplicada com crianças em mais de 2,5 mil escolas apenas no Brasil. Todavia, no Brasil, as experiências existentes restringem-se predominantemente ao ensino fundamental.
Uma educação filosófica pode, entre outras coisas, possibilitar à criança o desenvolvimento de uma consciência crítica, criativa, reflexiva e sensível em relação a si mesma e à realidade que a cerca. Pode ajudá-la a desenvolver atitudes éticas diante do mundo a partir da reflexão e do debate sobre valores existenciais essenciais. E, desse modo, praticar uma cidadania cada vez mais consciente.

Nas aulas de filosofia conduzidas a partir da metodologia de uma “comunidade de investigação” mediada pelo lúdico, as crianças exercitam o conhecer de modo interdisciplinar, aprendem a ler filosoficamente o grande texto da vida e do mundo, favorecendo com que nas próximas etapas da educação possam ler significativamente textos filosóficos ou de qualquer natureza.
A filosofia pode ser ensinada-vivenciada desde a infância e o espaço mais apropriado para essa atividade é, seguramente, a escola. A educação filosófica não é a panaceia das escolas brasileiras. Todavia, pode oferecer contributos assertivos à mesma.
Com o paradigmático Sócrates aprendemos que uma verdadeira educação não pode deixar de ser filosófica e, concomitantemente, uma verdadeira filosofia não pode deixar de ser educativa. Conforme Merleau-Ponty, a verdadeira Filosofia consiste em reaprender a ver o mundo. E re-aprender a ver a realidade é o primeiro passo para transformá-la!. Da caverna à luz do Sol o caminho é árduo, mas belo e gratificante.
 
 
REFERÊNCIAS
CBFC – Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças. Reflexões sobre uma educação para o pensar. Coleção Pensar, Volume III. São Paulo: 1996.
 
_________. A Filosofia e o incentivo à investigação filosófica. Coleção Pensar, Volume IV.São Paulo: 1997.
 
__________. Educação para o pensar. Coordenação de Marcos Antônio Lorieri. Direção do Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças. São Paulo: CBFC, 1999. 1 fita de vídeo, NTSC, VHS, son., color. 
 
CIESPI – Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância. Disponível em: http://www.ciespi.org.br/. Acesso em: 06/05/2021.
 
KOHAN, Walter Omar & WAKSMAN, Vera.Filosofia para crianças na prática escolar. Petrópolis: Vozes, 1998.
 
KOHAN, Walter Oman& KENNEDY, David. Filosofia e infância: possibilidades de um encontro. Petrópolis: Vozes, 1999.
 
LIPMAN, Matthew; SHARP, Ann Margaret; OSCANYAN, Frederick S. (Orgs). A Filosofia na sala de aula. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.
 
LIPMAN, Matthew. A Filosofia vai à escola. Tradução de Maria Elice de Breezinski e Lúcia Maria Silva Kremer. São Paulo: Summus, 1990.
 
Projeto Filósofos a Brincar. Disponível em: https://filosofiacritica.wordpress.com/6-livros/. Acesso em 06/05/2021
 
SILVA, Mauro Sérgio Santos da.; SOUSA, Rones Aureliano. O ENSINO DE FILOSOFIA COM/PARA CRIANÇAS. Olhares & Trilhas, v. 20, n. 1, p. 190-199, 28 abr. 2018.

* O autor Mauro Sérgio Santos da Silva é membro da Academia de Letras e Artes de Araguari ALAA. Membro da União Brasileira de Escritores (UBE). Autor do livro "Camaleão:metapoesia"
Professor de Filosofia e Analista Pedagógico (Prefeitura de Uberlândia) . Bacharel e Licenciado em Filosofia (PUC-MG/Belo Horizonte). Especialista em Educação Empreendedora (UFSJ-São João Del Rei)
Especialista em Supervisão, Inspeção e Gestão Escolar (Passo 1- Uberlândia). Mestre em Filosofia  (UFU-Uberlândia). Doutor em Educação (UFU-Uberlândia)
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